quarta-feira, 29 de março de 2017

Das cinzas

 E de uma vez por todas ele se levanta. Não toma o café nem se olha no espelho. Já sabe cada passo que dará no dia. A certeza de que nada será como antes. Suas mãos buscam as notas e letras com firmeza e se põe a escrever como um fluxo torrencial de vida. Um brilho fractal em seus olhos. Em seus lábios o sabor colorido da meia estação. As notícias seguem ruins mas a força que o motiva vai além da superfície da rede. Um emaranhado de pensamentos se desatam e transformam o tédio em uma paisagem sem igual, sem precedentes. Corredeiras de sentimentos e ideias.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

avalanche

Soterrado um coração. O gelo anestesia o corpo imóvel. Preserva a expressão pasma do atropelo que você causou. Mesmo um tanto assustado é possível ver a satisfação estampada no rosto frio. Um meio sorriso, quase lágrima e o peito aberto. Eu mesmo provocador e vítima. Gritava por você e você se deixou cair sobre mim com toda força e velocidade. De cabeça e sem piedade, me arrastando por milhas até se deter e me prender por inteiro.
Agora só nos resta derreter, juntos, num intenso rio ora calmo ora agressivo até desaguar num lago furtacor espelhado.
Se fundir com o próprio ser e evaporar aos poucos até te levar ao céu.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Descansaço

Prolixo vertiginoso destino de pedras bambas e desencaixadas estruturas inacreditáveis. Águas violentas de um gélido pavoroso desencontro divino humano. Línguas ambíguas por estranhos desavisados separados e distantes mares. Exóticos animais deslumbrados pelas rochas caídas do céu. Olhos destraídos traídos pelo ciúme e inveja da eternidade sublime das nuvens. A mata desbravada pelo Astro incandecente arredio entre as avalanches suplicantes de misericórdia. O universo grita e gira em espirais desconcertantes descontroladas desmedidas desprendidas desapercebidas. Desponta a ponta desse véu que cobre e descobre a paisagem paradisíaca do interior da mente do homem. Desarma o espírito, destrói a alma, descreve o inconciente e descança a razão.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Senta nessa cadeira vazia a minha frente e conta tua vida. Não precisa dizer nada. São teus olhos que dizem por você, sua testa, teu cabelo falho e teu sorriso discreto. Pede um café ou um suco, fique a vontade. Aquieta suas mãos num cigarro mentolado. Brinca com a fumaça sem pressa. Bebe devagar, goles pequenos, sente os aromas e texturas. Esquece a sua vida por esse instante e escuta o ambiente, escuta além do entorno e percebe os sons da rua lá fora, o som das crianças saindo da escola, a música tocando na igreja, a cidade chegando em casa, o sol atingindo o horizonte, as estrelas por trás das nuvens, queimando. O som do universo se expandindo e contraindo como uma casa velha de madeira. O ranger dos planetas colidindo com asteróides e a névoa dançando pelo espaço. Feche seus olhos para acordar para a vida, cubra seus ouvidos para escutar seu próprio coração que bate no ritmo desse lugar chamado vida.

sábado, 8 de outubro de 2011

nada

O que tenho de mais belo em satisfação se perde. Se agita minh'alma e se acalma com as marés. Pende o corpo e desfalece em água e sal. Boiando a deriva.


Sentes a falta da pele, do suor, do olhar e da boca. O cheiro impregnado no quarto, nas roupas e na lembrança. É preciso pudor ao pensar em ti, é cuidadoso. Mesmo que a angústia de se permitir enlouquecer seja tão forte e eloquente, mesmo que seja essa a mais nobre razão da existência humana, mesmo que transgredir seu próprio mundo e mergulhar contigo num universo obscuro, perigoso e definitivo, pareça a melhor aventura de todos os tempos. Tua companhia é imprecisa. É incompleta. E por minha culpa também, pobre escravo da sanidade.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Incêndio

Se alastra por minha cabeça em espirais demoníacas, silenciosas e brilhantes chamas e conceitos pobres de fundamentos. O gosto amargo das leituras esparsas em outros idiomas ainda não compreensíveis ao estudante geneticamente inapto à paixão. Humano desforme da moral comum as sociedades ocidentais. Objeto perdido dos costumes tradições, filosóficas experiências incapazes de absorver o conteúdo inerte e insosso do tempo. Cristais energéticos reluzentes espelhados esculpidos pela natureza desleixada e imprecisa das Américas. Ser-humano livre, das amarras da fé e armadilhas sociais, dos barbeiros e manicures ofensivos, de seus medos por terapias alternativas, preso somente por seu pequeno corpo, fraco e solitário pedaço de carne sem cor, sem alma. Preso por seus olhos negros e infantis, relutantes e cansados do estupro diário dos faróis de carros e falsos sorrisos. Mas guarda o fogo em sua língua, afiada e inquieta, objetiva e tão sagaz que poderia dar um nó em si mesma e mesmo assim continuar com a denúncia ao sistema vigente. Opressora mão invisível que rege as mentes desavisadas que caminham vagarosas e sem propósito por essa terra.


Não há permissão para o ser descansar até que se tenha consumido todo e chegado em fim as próprias cinzas, isto é, até que já se tenha transformado completamente em outra cousa qualquer.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

siga-me


Sorrindo, teus olhos buscam os meus, sorrindo, meus olhos fogem dos teus, sorrindo.


Vira a esquina de um país e me leva, já não quero parar. O pensamento nem faz mais por onde, só quer descansar do teu lado. Quer se juntar ao teu braço, teu lábio, teu olhar. Não se desfaz do interesse mesmo na distância. Quanto tempo ainda resta para arrumar a casa? Vou precisar de beliches no quarto. Comprar uma agenda telefônica nova. Esquecer os chinelos. Roupas leves mesmo para o frio. Mudar as músicas do mp3. Aproveitei mais do que podia a estadia. A permuta não paga nem o aluguel, mas o tempo amadurece até os problemas mais bobos. Incendeia essas caixas com antigas lembranças. Já não me importa a memória. Confuso? Quanto mais confuso mais admirável.